A verdade por trás do Brasileiro de Surf Feminino

Por Janaína

É complexo falar sobre esse assunto. Sempre que tento expressar minhas emoções com relação ao surfe feminino profissional no Brasil tenho certa dificuldade.

“Ah, mas você tem facilidade com a escrita”. Mentira. As vezes as palavras não veem, aquela ideia incrível que você teve horas atrás sumiu ou, no momento em que tudo passa a ter sentido e parece conseguir transmitir o que está sentindo, é interrompida: “Amor, quer um pãozinho?”. Além disso, passei anos me sentindo incapaz de escrever um release, que dirá matéria ou dissertação.

Tem horas que eu penso o quão bom seria ter uma bolha – daquelas de desenho animado com campo magnético e tudo – afastando qualquer interferência da mente. Pensando aqui, essa bolha poderia existir em muitos momentos, não só enquanto escrevo.

O que não contavam é com o poder da força feminina, que vem do ventre, tão inexplicável e tão forte que é capaz de dar luz a uma vida.

Neste momento enfrento a dificuldade de me expressar, mas ao contrário de ficar irritada com a falta de concentração estou animada. A casa está cheia, quer dizer, temos uma visita. Digo cheia pois quando recebemos essa pessoa no nosso lar (essa é a terceira vez que ela vem) a sensação é de haver mais gente.

Não é questão de bagunça, barulho, pelo contrário. Ela é quietinha, organizada e sempre viaja com pouca bagagem. Então o que faz dar a impressão de casa cheia? Penso que seja algo sobre sentimento. E, finalmente, chegamos onde eu queria.

Estamos a um dia do evento mais significante para o surfe feminino brasileiro profissional e amador do Brasil. Sua importância não se deve ao dinheiro, status, muito menos qualquer matéria que a grana tenha o poder de comprar. É sobre puro sentimento de amor, luta, alegria, paixão, garra que este artigo se trata.

Se este blog existe é por conta do Brasileiro Feminino

Escrevendo ao logo do tempo aprendi que não devemos fazer afirmações absolutas, é perigoso. Tipo: Este blog só existe por causa do Brasileiro Feminino.

Mudar de ideia faz parte da natureza humana e acho isso uma boa coisa. Da mesma forma que certos acontecimentos  são capazes de mudar o rumo da vida. Portanto, pode ser uma cilada aquela frase “se não fosse isso, não seria aquilo”.

Gosto tanto da ideia de poder e consequência que há nos nossos atos  e como podem transformar completamente o destino, que tatuei isso no braço enquanto vivia em Sydney. “I am the master of my fate”. Poderia ter sido em português, mas naquele momento achei que a língua inglesa fazia mais sentido. “Eu sou senhora do meu destino”. Ainda faço essa versão.

A verdade é que minha carreira profissional de jornalista especializada em surfe começou com o Brasileiro de Surf Feminino, há quatro anos.

A primeira edição do Brasileiro Feminino

Ainda morava em São Paulo quando soube que a surfista e bicampeã brasileira Suelen Naraísa tinha reunido a família, forças e energias para dar às meninas, e a ela mesma, a chance de voltar a competir.

Depois de três anos sem qualquer evento, as surfistas mulheres teriam a chance de sentir a emoção de uma competição. Para algumas meninas aquilo significava uma prova, já para outras um sinal de esperança, uma luz no fim túnel.

Neste ano conheci talentos que tiveram o sonho roubado como Nathalie Martins, Luana Coutinho, Camila Cássia, Gabriela Leite, Julia Santos (minha hóspede) e tantas outras, que diante de uma espécie de tentativa de exterminar de vez com a modalidade abandonaram de certa forma a carreira profissional.

O que não contavam é com o poder da força feminina, que vem do ventre, tão inexplicável e tão forte que é capaz de dar luz a uma vida.

Sophia Medina e Charles na primeira edição do evento, em 2015. Foto Filipe Burjato.

Um soco no estômago e a merda no ventilador

Com a força de quem pari um filho as mulheres conseguiram juntas organizar um evento, mesmo que simples e que para muitos não tivesse tanto valor.

Me preparei para uma série de entrevistas que dariam origem a minha primeira contribuição para a Editora Trip. Estava nervosa, aquilo representava muito pra mim. Já na primeira conversa tomei um soco no estômago.

Ouvi um discurso machista e recheado de preconceito de quem deveria estar do lado das surfistas. A entrevista com um dirigente da Associação Brasileira de Surf Profissional (Abrasp) foi repleta de nervosismo, dores no estômago, raiva, indignação e perplexidade: Eu não estava ouvindo aquilo!

Não só estava como tinha tudo gravado. Como se não bastasse o gravador,  as falas estavam registradas na minha mente. E custariam a desaparecer. “O surf feminino precisa de um personagem, uma linda surfista, que além de surfar seja modelo, que ela tenha o poder de levar o surf para a massa da população e não só atingir o nicho que já existe e consome o esporte”.

Com mais uma dose de coragem, talvez o último suspiro antes de desfalecer na cama de cansaço escrevi o que havia ouvido. Editei, cortei, dei para outros lerem. Estava honesto, estava sutil. Afinal, havia poupado e retirado as piores e mais ofensivas declarações do dirigente.

Matéria publicada. A merda estava no ventilador. A notícia foi parar na coluna de uma das jornalistas mais influentes do Rio, as atletas estavam indignadas, grupos se organizaram em repudio às declarações. Fui acusada de “escrevedeira” e mentirosa, precisei fazer mais de mil backups da tal gravação, tive apoio de colegas de profissão que decidiram ficar do meu lado e publicar o conteúdo na integra.

Passado o susto, já que não esperava tal repercussão, tive minha espécie de batismo no jornalismo. E o evento havia acontecido. As mulheres estavam de volta e mais fortes e unidas do que nunca.

Campeã em 2017, Luana Coutinho se emociona com resultado. Foto Suellen Nóbrega.

A segunda edição

Um ano mais tarde soubemos que a Wizard, patrocinadora e principal incentivadora do surfe feminino da região, confirmara que estaria novamente ao lado das meninas para mais uma edição do evento.

Desta vez, estava à frente da comunicação e divulgação depois de aceitar o convite para fazer a assessoria de imprensa do campeonato.

Com este trabalho reuni forças para tornar realidade outro sonho, morar na praia. O job me deu uma esperança. Não sabia, mas depois daqueles dias eu nunca mais voltaria a viver na Capital e longe do mar.

A terceira edição

Estava tudo certo e por mais um ano eu estaria à frente da comunicação do evento. O convite havia sido feito de última hora, depois de quase o evento não acontecer.

Na época surgiram boatos de que a ideia era se juntar à família Medina e realizar um grande festival, porém não houve aderência de grandes marcas o que tornava o sonho de transformar o “pequeno” evento em algo maior inviável.

De volta às origens e ao fiel patrocinador, a terceira edição do Brasileiro de Surf aconteceria, porém não comigo à frente de sua comunicação. Decidi voltar atrás na minha escolha e me manter apenas como uma espectadora do evento.

Mais uma vez foi lindo e com o título em casa. Luana Coutinho, talentosíssima surfista da bela praia do Prumirim de Ubatuba foi unânime e garantiu a vitória, dividindo com amigos e a família a alegria de ser campeã brasileira de surfe profissional.

Naquele ano, o churrasco da campeã foi em casa e rendeu uma coluna emocionada na revista Hardcore, em que escrevi:

“E a noite acabou cedo. Dez horas já não tinha mais ninguém em casa. Não havia bagunça, ninguém tinha derramado bebida no sofá, não tinha louça suja na pia, estava tudo irritantemente em seu lugar, tudo acompanhado de um silêncio brutal.

Eu queria ter visto Luana rindo, rindo muito. Queria ter ouvido as meninas dizendo como o evento tinha sido incrível, queria ouvir e ver ânimo nos olhos castanhos da Ubatubense talentosíssima da Praia do Prumirim.

Queria ter visto Camila Cássia gargalhando, comemorando o segundo lugar e planejando o próximo desafio, sua próxima disputa ou tirando fotos para o patrocinador (mas, que patrocinador?)

O céu estrelado sobre a minha cabeça, uma brisa gelada e mais uma vez aquele silêncio cortante. Um vazio estúpido.” Coluna Sweet and Sour (Outubro/2017).

Agora, a quarta edição

Falta um dia, Julia Santos, guerreira e motivo de luta, está hospedada em casa por mais um ano. Parece que já virou tradição, como acontece em lugares remotos como Tahiti em que os atletas se hospedam em casas de locais e torna-se membro da família.

O treino realizado na rua 21, ontem (21), trouxa à tona ideias, sugestões de pauta, entrevistas, descobertas. Durante meu aquecimento dei de cara com Sophia Medina, irmã caçula do campeão mundial e futuro certo da categoria no cenário mundial. Acompanhada por seu pai, Charles, olhavam o mar que chegava na casa do 1,5m tranquilamente. A vibração e energia das mulheres estava no ar de novo.

Na água muita emoção estar ao lado de Julia, da colega de remada Potyra, da novíssima geração com Nairê Marques e Sol Carrion, de apenas 13 anos, enfrentando maçarocas de água, tempo feio, água fria e o barulho forte de ondas explodindo nas pedras. Não é um cenário confortável pra uma criança. Havia medo certamente.

Assim, o dia foi marcado por uma certeza: a coragem está longe de ser a ausência do medo, mas sim o enfrentamento dele. É sobre coragem, luta e paixão pelo esporte que o surfe feminino segue..

As atletas presentes na primeira edição, em 2015

Já que estamos falando sobre verdades, preciso te contar que um dos convidados do evento é o filho do futuro presidente. Portanto, caso não ache interessante topar com a figura por aí, programe sua visita para uma outra hora, sem rush, afinal de contas, a bela Itamambuca estará sempre a sua espera.

SERVIÇO

CAMPEONATO BRASILEIRO DE SURF FEMININO

Praia de Itamambuca (canto direito) Ubatuba, SP

23, 24 e 25 de novembro

 

Autor: origemsurf

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12 Comentários

  1. Sei quase nada de surf, mas adoro seus texto!!

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    • hahaha melhor comentário <3 serei mais didática pensando nisso 😉

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  2. Que o evento aconteça com toda essa energia colocada no texto e que as mulheres possam em breve estar representando o Brasil no alto escalão onde merecem estar . Talentos não faltam
    Vamos apoiar a força da mulher brasileira
    Aloha

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  3. Tb não sei nada de surf, mas sei um pouco de texto. E esse texto está lindo e honesto.

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    • <3 você não pode imaginar o quão feliz é saber que estamos no caminho...obrigada por seu comentário! bjs, jana

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  4. Falei que vc era uma jornalista né? E das boas! O surf está dentro de vc menina, isso é inegável. Não desista dele nunca!
    Bj

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    • do surfe não desistirei nunca, apesar de todas as más notícias e surpresas desagradáveis no caminho seguirei surfando. agora, se eu continuarei escrevendo sobre o surfe já são outros 500…mas, por enquanto, eu sigo <3 um beijo enorme e obrigada pelo carinho de sempre <3

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  5. Que texto incrível, admito o esporte e a liberdade que ele traz a seus praticantes, com luta e dedicação o surf feminino assim como o masculino vai florescer…da para sentir toda a energia do esporte e ds natureza em suas palavras… parabéns

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  6. Muito bom o seu texto Janaína. Surfar com vc é muito legal.

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