‘Não existe onda ruim, existe prancha errada’, diz apresentador de programa em que o mote é diversão

Entrevista com Fábio Gouveia

por Janaína

Fábio Gouveia foi um dos primeiros entrevistados desse blogue. Na época soou uma benção. Um aval. Então, com a entrevista do primeiro surfista brasileiro capaz de vencer uma etapa do circuito mundial de surfe, iniciei pra valer. Escolhi o nome: Origem. Tinha que ter surfe. Então, Origem Surf (pronuncia-se “surfi”) Compartilhei no grupo da família. Foi aprovado.

Assim, com horas de esforço surgia o blogue de WordPress, OrigemSurf. A facilidade de apertar um botão e criar uma plataforma de conexão com centenas de milhares de pessoas não expunha, naquela época, o desafio de empreender com baixíssimo (para não dizer nenhum) investimento.

Também não pensei no ódio dos hater´s. Muito menos que dois anos depois da primeira entrevista com Gouveia, viria a Folha. E menos ainda, que ser jornalista (da Folha) seria ruim diante do tsunami conservador e obscuro que estaria prestes a afogar o país; e eu “falando” de surfe.

Hoje, quando olho pra trás, acho graça da atitude. Reconheço, que assim como os surfistas brasileiros que demonstram terem tamanha coragem ao enfrentar preconceitos, falta de patrocínio e de circuito, ainda sim conseguem de uma forma ou outra quebrar barreiras. Alguns desistem, é verdade. Eu mesma já quase desisti inúmeras vezes.

Fazer história exige coragem

Gouveia foi o primeiro surfista brasileiro a vencer uma etapa mundial. Foi também o primeiro a subir em um “pódio havaiano”. Talvez o primeiro surfista a se tornar de fato um profissional da modalidade.

E isso não faz muito tempo. Foi ontem. Quebrar tal hegemonia, cravada por australianos e estadunidenses, desde que o esporte virou modalidade competitiva, é para poucos. Por isso, penso que os ídolos do surfe, com exceção de Medina, não têm a eles concedida a importância que realmente merecem.

Quando parei de competir de vez, caí de cabeça nessas pranchas diferentes, pranchas fishes, mais retrô, mais old school, com menos curva, mais área de flutuação, bico mais largo, rabeta mais larga etc.

Fábio Gouveia.

Um dos primeiros filmes de surfe que assisti no Cinema, Fábio Fabuloso (2004), sentada numa poltrona do charmoso Reserva Cultural, na avenida Paulista, descobri que o surfista de quem eu soubera apenas sobre o talento em cima da prancha, revelava muito mais.

A seguir, confira as respostas de Fábio Gouveia a três perguntas que fizemos a ele:

Depois de ser um dos surfistas mais populares do Brasil, agora você encara o papel de apresentador. Você imaginou algo assim para sua vida quando ainda era um menino da paraíba? Estou nesse lance de programa de TV já há um tempo, desde 2007. É algo natural e aos poucos vou me aperfeiçoando, me soltando. Nunca fiz um curso mas acho que, de certa forma, isso que é o legal. Sempre gostei de trabalhar deixando as coisas fluírem ao natural, porque aí transparece a parada legal. Tem mais vibração, né?

Muito do sucesso do programa também é do excelente produtor, o Luciano Burin. Além das coisas que eu proponho, ele sugere muitas coisas diferentes e me mostra novidades como fabricantes que não conhecia e surfistas old school e underground. O programa não é só meu, é de todos. E a gente procura passar isso e mostrar coisas legais e diferentes para a galera. É tudo muito natural e não deixamos cair na mesmice.

Comecei a pegar onda porque o esporte me cativava. Achava um lance muito plástico. Isso de estar no mar, solto. E sempre gostei de gravar porque fazia parte dos meus treinos. Gravava as ondas e assistia para melhorar o desempenho. Quando me casei e tive filhos, correndo mundo afora, minha esposa filmava bastante. Captamos muita coisa e temos um acervo legal, de família mesmo. Imagens bem toscas, muita coisa sem tripé, mexido. (risos)

Quando eu vi que estava muito dentro do surfe imaginei que, quando parasse de competir, não quisesse me distanciar do esporte. Já tinha dedicado tanto tempo da minha vida ao surfe, então iria continuar nesse meio porque o surfe sempre foi a minha profissão e a minha diversão.

O mote do programa é diversão, qual a importância na sua visão de falar sobre surfe de modo mais descontraído, o oposto do ambiente competitivo em que você figurou durante tantos anos? É muito importante apresentar esse lado do surfe. Mostrar que você tem condição de se divertir em uma onda, mesmo usando uma prancha diferente para aquele momento, por exemplo.

Quando competia viajando o mundo, via muito a galera se divertindo em pranchas diferentes. Só que na competição você fica muito bitolado, até porque o foco é aquele. Você fica muito em cima de pranchas competitivas, então não tem muito espaço para usar coisas diferentes. E sempre via aquela galera com bons olhos. Aí, no processo de parar de competir entre 2007 e 2009, foi quando voltei a “sheipar” e fazer pranchas novamente.

Quando parei de competir de vez, caí de cabeça nessas pranchas diferentes, pranchas fishes, mais retrô, mais old school, com menos curva, mais área de flutuação, bico mais largo, rabeta mais larga etc. Tinha maior vontade de usar esse modelo, via os caras usando e não podia. Quando me libertei das competições (risos) eu passei a usar muito esse tipo de prancha e fabricá-las. Aprendi a surfar diferente em outros tipos de prancha e foi aí que comecei a achar a minha diversão fora das competições e também em ondas ruins. Consegui achar a diversão em onda fraca.

Quando você para de competir precisa fazer muitas outras coisas para continuar a vida, não é fácil. Eu fabrico prancha, tenho programa de tv, escrevo para site, tenho minhas funções com patrocínio… Então todo momento que eu posso estar na água, valorizo muito. Seja em um mar totalmente ruim ou bom. Fico sempre procurando o material adequado para me divertir em qualquer condição. E é isso que procuro mostrar ao público com o programa.

Qual seu próximo projeto? Quero seguir com o programa, já temos muitas coisas em mente. Muitos cantos que passei e que pretendo voltar. Também vou continuar com o trabalho de shaper, quero fazer pranchas em outras fábricas para ter novos ensinamentos e conhecer novas pessoas. Tenho uma clínica de surfe anual aqui em Floripa em parceria com o hostel The Search House e também a Barca do Fia, onde passo meu aprendizado para outros surfistas de uma forma natural.  Também estou tentando ingressar no hydrofoil, que é um esporte mais difícil, e pretendo iniciar no kite. Vivo o surfe desta forma e sempre me divertindo.

O último episódio do programa vai ao ar na próxima segunda-feira, 08, às 22h. Mas, pelo que Fábio nos adiantou, podemos esperar mais edições de “Fábio Gouveia: A Onda É Se Divertir”.

E você, também acredita que não existe onda ruim?

Credito da Foto: Divulgação Canal OFF.

Sinopse

O mestre do estilo Fábio “Fia” Gouveia é protagonista de “Fábio Gouveia: A Onda É Se Divertir”, que vai ao ar no Canal OFF toda segunda-feira, às 22h. O programa acompanha Fia e sua paixão por fabricar e surfar com as mais variadas pranchas, acompanhado de surfistas e shapers que impulsionam a arte de deslizar sobre as ondas.

No decorrer dos episódios Fia também visita locais importantes de sua trajetória, como João Pessoa, Cabedelo, Recife, Maracaípe, Pedra de Xaréu, Baía Formosa, entre outros. “Não existe onda ruim, existe prancha errada. Vejo muita gente passando sufoco na água porque está com a prancha errada para aquele momento”, afirma Fia em um dos episódios.

Autor: origemsurf

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