Profissão Shaper!

Zampol em seu templo sagrado. Foto Jair Bortoleto.

“A curiosidade me fez pegar a prancha bater ela na parede para ver o que tinha dentro. Aí abriu a rabeta, quebrou e eu vi como era”.

Foi assim que Sylvio Zampol começou a shapear na década de 70 em Ribeirão Pires, município localizado entre Santos e São Paulo.

Em 1980 Zampol trocou de vez o interior pelo litoral, se mudou para Santos, onde iniciou o curso de engenharia civil. Lá começou a trabalhar na RipWave, onde ficou por 10 anos, até sair em carreira solo.

Foi aí que comecei a me interessar por fabricação. Um dia soube que no Aeroporto Internacional de São Paulo vendiam as revistas Surfer e Surfing, então passei a comprar para ter alguma informação sobre modelos de prancha.

Hoje, a frente da Zampol Surfboards, junto com seu sócio Zeca e com mais de 40 anos de experiência na fabricação de pranchas, Sylvio se tornou um dos principais shapers do país.

Confira abaixo entrevista na íntegra.

Como você começou a shapear? Foi por curiosidade. Comecei a ter contato com o surfe na década de 70, em Santos, comprei a minha primeira prancha em 1975. Foi aí que comecei a me interessar por fabricação. Um dia soube que no Aeroporto Internacional de São Paulo vendiam as revistas Surfer e Surfing, então passei a comprar para ter alguma informação sobre modelos de prancha. A curiosidade me fez pegar uma prancha e bater ela contra a parede para ver o que tinha dentro. “Abriu” a rabeta, quebrou, e então eu vi como era e comecei a pesquisar sobre materiais, fiquei sabendo que em São Paulo tinham umas lojas que vendiam fibra de vidro, fui atrás e assim foi acontecendo.

Como foi no começo, você já abriu sua própria fábrica? Logo que comecei eu fabricava as pranchas em pequena escala e fazia tudo: shapeava, laminava, etc. Não tinha nem plaina essa época, pra você ver como a informação era escassa. Em 1980 fui fazer faculdade de engenharia civil em Santos e comecei a trabalhar na RipWave onde só shapeva, porque já era uma fábrica constituída e cada um fazia uma etapa. Fiquei shapeando lá por 10 anos. Quando saí comecei a trabalhar só shapeando e conheci meu sócio, o Zeca, que só laminava. Eu tinha minha sala de shape e ele laminava em outro lugar. Em 1996, resolvemos nos unir e montar uma fábrica, a Zampol Surfboards.

Além de fabricar as pranchas Zampol você possui a licença para fabricar as pranchas DHD Brasil. Como foi esse contato? Em 1999 eu quis me aventurar, ter algum diferencial aqui no Brasil e fui colher informações lá fora. Fui para Austrália pela primeira vez e tive contato com várias fábricas inclusive a DHD, que foi a fábrica que eu trabalhei. Na hora de ir embora o shaper e dono da DHD, Darren Handley, me convidou para fazer as pranchas no Brasil, mas eu recusei, pois a marca não era muito conhecida aqui, e ele queria fazer com a matéria prima importada e iria ficar muito caro. Então achei que não ia dar certo. Em 2001 ele me convidou para voltar à Austrália e insistiu novamente em fazer as DHD’s no Brasil e desta vez aceitei. Voltei com muita informação de padrões e comecei a produzir as pranchas da marca aqui no Brasil da mesma forma que elas eram produzidas na Austrália. Foi a primeira marca de prancha gringa a ser produzida aqui e a licença está comigo até hoje.

Zampol Jair Bortoleto
A arte de shapear, Zampol por Jair Bortoleto.

Você também possui a licença para fabricar mais duas marcas Australianas a LSD e a Annesley. Como foi o contato com estas marcas? Estas duas marcas vieram por conta de já estar trabalhando com a DHD. Os responsáveis que me procuraram para produzir suas pranchas.

Como foi seu primeiro contato com as máquinas de shaper? Foi na minha primeira ida à Austrália, mas nessa época não eram máquinas computadorizadas eram máquinas pantográficas de cópia de curva, copiava a curva de cima e a curva de baixo do shape e o resto era feito na mão com plaina.

Desde então você começou a usar máquina aqui no Brasil? Como foi essa evolução? Quando eu voltei para o Brasil, ao lado do meu sócio Miguel, desenhamos e fabricamos nossa própria máquina. E em 2000, aconteceu de fabricarmos máquinas pantográficas para vender. Depois de uns três anos começamos a projetar as computadorizadas. E então, desde 2006, não peguei mais em uma plaina.

Então além da fábrica de pranchas você possui um outro negócio?  Sim. O Miguel é engenheiro mecânico, juntos montamos uma fábrica em Santos de máquinas computadorizadas e prestação de serviço de usinagem para vários fabricantes de pranchas de surfe. Fomos pioneiros no Brasil neste tipo de negócio. Hoje possuímos nossas próprias máquinas e já vendemos algumas aqui no Brasil.

Você possui atletas profissionais na equipe. Como é a troca de informação com eles? Geralmente o atleta quer experimentar alguma coisa diferente do que ele está usando, e ele chega trazendo informações sobre o que não está funcionando na prancha e quer melhorar estes pontos. Muitos pedem sugestões do que pode ser feito e alguns já chegam com ideias básicas de largura, flutuação, por exemplo. A partir daí começa uma troca de informações, um bate papo para tentar absorver a necessidade do atleta. Eu gosto de fazer uma prancha e a partir desta, desenvolver as demais trocando informações até chegar na prancha ideal.