Suicídio de Jean levanta uma questão: onde está a essência do surf?

Jean em uma de suas postagens na rede. Arquivo pessoal.

O texto sobre a tragédia envolvendo Jean Da Silva atingiu internautas de diversos países. Fomos parar em computadores e smartphones de lugares onde nunca havíamos estado, desde a criação do blog, há pouco mais de ano.

Reino Unido, Espanha, Nova Zelândia, Itália, Cingapura, Indonésia, Alemanha, França, Canadá, Japão, Costa Rica, China, Irlanda, Honk-Kong, Noruega, Ilhas Cook, Dinamarca, Países Baixos Caribenhos, Polinésia Francesa, Burquina Faso (nem sabia da existência deste país), Grécia, Sri Lanka, África do Sul, Líbano, Finlândia e Suécia.

O significante alcance trouxe à tona reflexões e mais perguntas.

E se Jean tivesse sofrido um acidente de carro, ou estivesse entre as vítimas de um ataque terrorista? Alguma coisa mudaria? Teríamos tido tantos acessos? Acredito que não.

O suicídio é um tabu, assunto abominado por séculos pela esmagadora maioria das religiões ao redor do planeta. O que torna o suicida um ser quase invisível,  e um pecador, claro.

Com a tragédia, o ardiloso tema entrou galopante e sem pedir licença nas casas de famílias, invadiu jantares e rodas de amigos. Abalou a comunidade do surf, que se questionou.

Ouvi e li frases como, “Deve ter brigado com a namorada.” “Tinha uma dívida com um traficante?” “Devia ser depressivo” “Será que alguém não matou ele, não?” “Ele queria ter ido para o Havaí competir!”

Em um grupo de WhatsAPP, alguém comentou “Tá estranha esta história”. Estranha? O que tinha de estranho? “No surf nunca tinha ouvido falar, afinal o surf afasta a depressão”, completou a integrante do grupo.

O surf pode sim ajudar a combater um possível quadro de depressão, assim como o futebol, o vôlei ou qualquer outra atividade física.

Mas o surf, esse surf excludente atual, machista, misógino e preconceituoso, essa patotinha composta por surfistas incríveis, saudáveis, sarados e felizes da TV (#sqn), pode levar muita gente bacana pro buraco.

Vai ver se o surf afasta a depressão do surfista gordo, ou da menina feia e lésbica sem patrocínio, ou do atleta que fala errado porque não teve acesso à educação de qualidade, ou ainda porque é preto ou tem o “cabelo ruim”.

Jean não era pobre, nem preto, nem ignorante. Muito pelo contrário. Era de uma família tradicional de Joinville, sul do País. Teve acesso aos melhores colégios, era “branco”.

Seu suicídio levanta questões sobre este mundo de fakenews e fakelifes em que vivemos. Num mundo onde “Quantos seguidores você tem?” É o novo, “E aí, beleza?”

Na TV, vendem mais fantasia. “Venha Para O Incrível Mundo de Medina”. O mundo ideal, do surfista ideal, do mais forte, do mais desafiador, do mais persistente, do supersurfista.

E daí, vem o Jean Da Silva e se mata pra te lembrar o quanto o mundo tá doente. E quanto o mercado do surf tá doente e cada vez mais longe de sua real essência.

Natureza, liberdade, humildade, calma, aceitação, paz, prazer, respiração, energia, contemplação. Isso é surf. O resto é criação de uma sociedade doente.

Nota da autora: procuro na internet uma imagem, uma foto para ilustrar esse post. Dou um Google, mais alguns cliques e chego num vídeo do atleta publicado há cinco anos. O título do vídeo? “A essência do surf”.